Nas entradas de vários prédios de denominações evangélicas, que são o que chamam, equivocadamente, de igrejas, costumam figurar alguns produtos evangélicos, tais como CDs, livros de teologia -normalmente os piores, como 'A Cabana'-, camisetas, adesivos para conversão e batismo de seu automóvel, bem como as bíblias da mulher, da criança, do adolescente, do cachorro, do papagaio e de todo tipo de divisão didática abominável, como se a boa e velha Bíblia Sagrada, aquela sem perfumaria, não fosse mais capaz de nos passar a perfeita e já extremamente didática Palavra de Deus (aqui, uma boa didática).
É claro que o local onde se passa esse comércio nada é. Tendemos a chamar aquele monte de tijolos de igreja, templo ou casa de Deus. Se alguém o chama de igreja -e não o faz pela tenebrosa força do hábito-, certamente não entendeu que a Noiva do Cordeiro não é um milheiro de tijolos, mas sim todo o conjunto dos verdadeiros cristãos partícipes e integrantes do Corpo de Jesus, o Cristo. Chamar de templo ou de casa de Deus também demonstra um sintoma de um problema grave: ainda estar vivendo no Judaísmo sem se dar conta disso!
O último Templo de Jerusalém, sucessor do Tabernáculo dos tempos mosaicos, situava-se no Monte Moriá e foi quase completamente destruído pelos romanos aproximadamente 70 anos após a morte de Cristo, restando apenas o que hoje chamamos de Muro das Lamentações. É bem verdade que as "igrejas" de hoje mais parecem verdadeiros centros de lamentação, onde o cristão vai para pedir compulsivamente bênçãos a Deus, tal como os judeus até hoje depositam seus papeizinhos na fendas do Muro das Lamentações, suplicando a Deus que envie um messias que, na verdade, já veio a este mundo há mais de dois mil anos!
Não, não há mais templos de pedra, nem altares para oferecermos sacrifícios, se não os sacrifícios de nossa própria carne dentro de nós mesmos. Pela carta aos Coríntios sabemos que é nosso corpo o templo, e que a casa de Deus não está no mármore e no concreto, mas em nós! (1 Coríntios 6.16). Então, está mais do que na hora de abandonar esse ranço judaico de uma vez por todas. O "prédio denominacional" no qual os cristãos se reúnem nada mais é do que fruto da enganosa cultura humana, e a apostasia não é abandonar o culto burocrático e institucionalizado que são praxe nas noites de sábado e de domingo, mas sim abandonar a fé em Deus e fazer desabar o templo dentro de si próprio.
Retornando à questão do comércio dentro das "igrejas", é justo dizer que não se trata do mesmo caso narrado no capítulo 2 do Evangelho de João, onde Jesus lançou todos os comerciantes para fora do Templo, alegando que a casa do Pai não é casa de venda [ou negócio, a depender da tradução], uma vez que o local físico onde hoje são vendidos uma infinidade de produtos evangélicos, como já dito, nada mais é do que absolutamente nada. Entretanto, nada disso justifica o comércio gospel, pois se não há problema em vender coisas em um prédio que nada é e nada representa, com certeza há problema em vender coisas em nome de Deus diante do próprio templo localizado no interior de cada cristão.
Certamente o problema que Jesus viu não foi o comércio em si, que é uma atividade "natural" da sociedade gregária em que vivemos, mas sim a associação do que é de Deus ao comércio, vez que, aquele comércio só estava ali, naquele lugar, porque era aonde as pessoas iam em nome de Deus. Também assim, só prospera o comércio gospel porque anseia tornar oneroso o louvor e o conhecimento que são e que devem ser gratuitos, e isso é feito em nome de Deus por pessoas e para pessoas que são, ao menos na teoria, templo do Espírito de Deus. Se a Palavra e a Graça de Deus são absolutamente gratuitas, perfeitas e vindas do próprio SENHOR, quem é o homem para, em nome dEle, cobrar alguma coisa? Deus não nos cobra pela Graça, mas nós cobramos com a horrenda desculpa descontextualizada de que o cristão obreiro é digno de seu salário.
É importante salientar que a Bíblia não diz o tipo de venda ou negócio que não deve ocorrer na casa de Deus. Jesus diz para não fazer da Casa do Pai uma casa de negócio, se é gospel ou não, é irrelevante. A verdade é que há, hoje, verdadeiras multinacionais do louvor gospel arrebatando fãs em espetáculos pirofágicos através de um Evangelho diluído e reconstruído para ser mais atrativo aos jovens. Bíblias luxuosas de teólogos doutores espiritualmente mortos custam mais que uma centena de Real. Livros de teologia, em sua maioria da teologia antibíblica do neopentecostalismo, vendidos em livrarias especializadas em ganhar dinheiro em nome de Deus.
Para que tudo isso? O louvor local já não serve? Precisamos de isqueiros importados para reacender o fogo de palha que tem sido a fé que deveria ser puramente pautada no Evangelho? Precisamos de injeções de adrenalina cristã para animar o tedioso e cafona Evangelho? Você dirá que não precisamos, e dirá que isso é até mesmo óbvio, mas provavelmente se tirarmos tudo o que é pop da vida cristã da Igreja, haverá uma debandada geral, um punhado de ovelhas renegadas buscando a verdade no mundo secular, onde, aí sim obviamente, não a encontrarão.
Se estudo o Evangelho e, em nome do meu dever de anunciar o Evangelho, escrevo livros de estudo e cobro por eles, a quem eu sirvo? A Deus ou a mim mesmo? Na Bíblia vemos Paulo fabricando tendas para se sustentar. Paulo não vendeu suas epístolas, nem João vendeu seu evangelho. Nenhum dos profetas e evangelistas cobraram pelas palavras que, reveladas pelo próprio Deus, foram escritas pelas suas mãos. O que a Bíblia chama de salário do obreiro não é dinheiro, mas, lendo Lucas 10.7 de acordo com contexto, eram os alimentos necessários para a subsistência do obreiro [também em Mateus 10.10 e em 1 Co 9.14]. É absurdo pensar que tal autorização vinda da parte de Deus é o que respalda a televisão Full HD na casa do pastor comprada com o dinheiro arrecadado na "igreja". A obra respalda o mínimo, que é a subsistência, e não o supérfluo. Se o obreiro quer qualquer coisa além do que é necessário (entenda necessário como algo que é realmente necessário), deve trabalhar por si.
O último detalhe a ser ressaltado diz respeito a como vinha esse salário nos tempos de Jesus. O salário não era propriamente a contraprestação pela palavra do obreiro, mas sim o fruto da caridade dos outros cristãos. Não era um livro, um cântico ou uma pregação por algumas moedas ou alguma comida, pois, independentemente do salário, o trabalho era feito. O salário a receber poderia vir ou não, de acordo com a disposição dos cristãos para hospedar os obreiros em suas casas, dando-lhes abrigo e alimento. O que Deus quis dizer quando falou que o obreiro é digno de seu salário [ou seu alimento, conforme o contexto], é que o cristão não se torna um aproveitador quando aceita algo voluntário de acordo com o bom grado das pessoas que os recebiam, ou seja, o obreiro não precisava se sentir indigno pelo que comia e bebia só por estar pregando o Evangelho. Nada era cobrado, nem mesmo condicional, o que é totalmente diferente do que ocorre hoje.
Para muitos, Deus se tornou um produto extremamente rentável. A maioria das pessoas que comercializam Deus, entretanto, não sabem o que estão fazendo. Apesar disso, a verdade está para todos, a não ser os que não querem vê-la.
Graça e Paz.
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ResponderExcluirMuito interessante o seu pensamento, eu ainda não tive a oportunidade de ler o livro "A Cabana", mas sobre a venda de artigos evangélicos eu concordo com você, eu creio que assim como Jesus Cristo multiplicou aqueles peixes e pães e não cobrou nada de ninguém a mesma coisa é o evangelho dele que deve seguir o mesmo padrão como exemplo de um verdadeiro cristão.
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